terça-feira, 10 de agosto de 2010




Aquarela

As flores-de-São-João dão vida à arvore seca,
O ipê roxo se eleva entre a estrada e o pasto.
A água escorre de uma montanha de pedra
E é como sangue resplandecendo ao sol.

O céu límpido ao fundo dói de tão azul,
Um gavião carcará passa voando e grita.
As plantações de vários tons de verde
Brilham enfileiradas nos montes em frente.

A fumaça espirala-se das casas nas encostas.
Um jumento cansado rumina o universo
Com os olhos tristes, mas com paciência.
E o vento silva sem pressa no capinzal.

Uma capelinha branca na montanha mais alta,
Um inviável barco a vela no pequeno lago,
A água cai, em festa, de uma calha de bambu.
Colhemos, nos olhos abertos, a calma do dia.

______poema de José Carlos Brandão______

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A FAMÍLIA NO DOCUMENTO DE APARECIDA

A FAMÍLIA NO DOCUMENTO DE APARECIDA

A família cristã está fundada no sacramento do matrimônio, sinal do amor de Deus pela humanidade e da entrega de Cristo por sua esposa, a Igreja. Tem seu modelo perfeito na Santíssima Trindade, no amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A pastoral familiar diocesana deve proclamar o evangelho da família, promover a cultura da vida e trabalhar para que os direitos das famílias sejam reconhecidos e respeitados.

A infância deve ter uma ação prioritária da Igreja, da família e das instituições do Estado. É dolorosa a situação de pobreza, de violência (sobretudo em famílias desintegradas), de abuso sexual; de infância trabalhadora, de rua, portadora de HIV, órfãos, soldados, e enganados e expostos à pornografia e prostituição.

É necessário estimular a pastoral dos adolescentes. Os jovens constituem a grande maioria da população. Por sua generosidade, são chamados a servir a seus irmãos, especialmente aos mais necessitados. Têm capacidade para se opor às falsas ilusões de felicidade e aos paraísos enganosos das drogas, do prazer, do álcool e de todas as formas de violência.

Muitos passam por situações que os afetam: a pobreza, a exclusão, a alienação, novas propostas religiosas e pseudo-religiosas. A educação de baixa qualidade limita seus horizontes de vida e dificulta a tomada de decisões duradouras. São afastados da política pela corrupção e pelo desprestígio dos políticos. Aumentam os suicídios de jovens. Outros não podem estudar ou trabalhar e muitos deixam seus países: é o rosto juvenil da migração. A droga é um apelo constante, de que muitos não conseguem fugir.

A Palavra de Deus nos desafia de muitas maneiras a respeitar e valorizar os mais velhos e anciãos. Muitos são verdadeiros discípulos missionários de Jesus, por seu testemunho e suas obras. A Igreja se sente comprometida a procurar a atenção humana integral de todas as pessoas idosas.

A antropologia cristã ressalta a igual identidade entre homem e mulher em razão de terem sido criados a imagem e semelhança de Deus. O mistério da Trindade nos convida a viver uma comunidade de iguais na diferença. A relação entre a mulher e o homem é de reciprocidade e de colaboração mútua. A mulher é co-responsável pelo presente e pelo futuro de nossa sociedade.

O homem é chamado pelo Deus da vida a ocupar um lugar original e necessário na construção da sociedade, na geração da cultura e na realização da história. Enquanto batizado, o homem deve se sentir enviado pela Igreja a todos os campos de atividade que constituem sua vocação e missão dando testemunho como discípulo e missionário de Jesus Cristo na família.


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A arte da linguagem


“A arte é uma linguagem própria e criadora, cria outrasrealidades, e as expressa de forma irredutível a outra linguagem. Há os que desejam ver os sonhos explicados com razões claras e definidas, em lugar dos obscuros símbolos com que se manifestam. Mas, a rigor, o sonho expressa uma realidade na única forma em que pode expressar. Mais ainda: essa expressão é sua realidade. O mesmo ocorre com uma sinfonia ou um romance. Que quis dizer Kafka em O Processo? O que está em seu livro. A arte, como o sonho e o mito, é uma ontofania, e acabou-se. Mas, de qualquer forma, é uma revelação de algo e não um fim em si mesma. O que não quer dizer que seja a expressão ou revelação mecânica, o mero reflexo de uma realidade objetiva. Essa ideia do reflexo é um dos lugares-comuns do materialismo vulgar e do positivismo. Madame de Staël chegou a falar de uma “arte republicana” assim como nos falavam de uma “arte burguesa” aqueles stalinistas que obedeciam às ordens do Coronel-General Zdanov. Há, evidentemente, uma relação entre arte e sociedade, e talvez se possa falar de uma homologia. Em uma sociedade como a de hoje, por exemplo, na qual o homem está angustiado pela coisificação, é mais intensa a nostalgia da individualidade perdida, da intimidade avassalada, o eu violado: como não se esperar uma maior tendência à expressãoi lírica? Mas essa atitude não é um reflexo, senão um ato de rebeldia e negação, um ato criativo com que o homem enriquece a realidade preexistente. O homem produz o homem, disse Marx numa frase tão distante do famoso reflexo como um pontapé de um espelho. E nisto, como em tantas outras manifestações do pensamento atual, é prexiso render homenagem ao todo poderoso Hegel e à sua ideia de autocriação do homem. E este homem que se cria a si mesmo o faz através de tudo que o espírito subjetivo é capaz de fazer: desde uma máquina até a poesia. Qualquer obra de arte, mesmo a linguagem, mostra um duplo e dialético caráter: é, ao mesmo tempo, expressão da realidade e uma realidade em si mesma. Uma realidade que não existe fora dessa obra nem antes dela. A linguagem torna-se, assim, uma mediação e um fim em si mesma.” (Ernesto Sábato)

http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2010/08/exercicio-de-criacao-1.html